O setor profissionaliza-se ou desaparece.
Não é uma previsão. É uma escolha que já está a ser feita, com ou sem a nossa participação.
O cliente mudou. A tecnologia mudou. O mercado mudou. O que ainda não mudou, o suficiente, são as pessoas que o lideram.
Hoje, qualquer cliente entra numa negociação com acesso a dados de mercado, simuladores, histórico de transações e avaliações automáticas. Encontra o imóvel sozinho. Compara sozinho. E chega à conclusão, com frequência, de que não precisa de ninguém.
Mas há o que ele vê, e há o que ele não consegue fazer, mesmo que julgue que consegue.
Não consegue estruturar uma estratégia. Não consegue interpretar sinais do mercado com profundidade. Não consegue conduzir uma negociação complexa. Não consegue proteger-se emocionalmente nas decisões. Não consegue ler o que não está a ser dito.
O problema não é o cliente não perceber o valor do consultor. É o consultor não o ter tornado visível.
E quando o valor não é visível, a conclusão do cliente é lógica: "consigo fazer isto sozinho." Não é arrogância. É racionalidade perante aquilo que vê.
Mas há um segundo problema. Mais fundo. Mais silencioso.
O setor ainda dá dinheiro. E é exatamente isso que o está a matar.
Enquanto os resultados aparecem, a pressão para mudar é zero. As estruturas antigas mantêm-se. As ferramentas fecham-se sobre si mesmas. O investimento real em capacitação, a que transforma profissionais, não a que preenche calendários, continua a ser tratado como custo, não como estratégia.
O resultado chega em silêncio. O consultor começa a sentir que sabe menos que o cliente. Não só nas grandes questões, nas básicas. No uso da tecnologia. Na comunicação. Na forma de se apresentar. E quando isso acontece, não é só a venda que está em risco. É a crença.
O principal recurso deste setor são as pessoas. E as pessoas estão a deixar de acreditar, em si, no líder, na estrutura, no setor.
Não são só os clientes que desacreditam nos consultores. São os consultores que desacreditam em si próprios. Que chegam a uma reunião com menos confiança do que o proprietário que estão a tentar convencer. Que sentem que a porta de entrada, as competências base, já não está à sua altura.
Isto não é um problema de mercado. É um problema de liderança.
Porque há brokers e gerentes que veem o que está a acontecer, e continuam a usar as mesmas fórmulas porque a conta bancária ainda não deu sinal de alarme. O dinheiro que ainda entra é o anestésico que atrasa a transformação que o setor precisa.
Profissionalização não é saber mais do que ontem. É saber mais do que quem está do outro lado. E isso exige duas coisas que já não são negociáveis: aprendizagem contínua e responsabilidade individual. Porque esperar que a estrutura ensine tudo é, hoje, a forma mais rápida de ficar para trás.
O mercado não precisa de mais consultores. Precisa de mais profissionais. Um profissional não se mede pelo que faz. Mede-se pelo que o outro não consegue fazer, mesmo quando acha que consegue.
- Que a profissionalização não é opcional. É a única forma de continuar a justificar a nossa existência no processo.
- Que o valor do consultor vive no invisível, e é responsabilidade do consultor torná-lo visível. Se o cliente não vê, é porque ninguém mostrou.
- Que liderar uma equipa é uma responsabilidade dupla: pelo negócio e pelo nível de quem o representa. Um broker que não investe nos seus consultores está a investir na sua própria irrelevância.
- Que o dinheiro que ainda entra não é prova de que o modelo funciona. É o tempo que falta para perceber que não funcionava.
- Que a formação que não transforma não conta. Preencher calendários não é o mesmo que desenvolver profissionais.
- Que a crise de confiança já começou (há muito) e quem ainda não a sente é porque ainda não prestou atenção. O consultor que se sente menos competente que o seu cliente não tem um problema de motivação. Tem um problema de sistema.
- Que isto não é contra ninguém. É a favor de quem quer construir algo que dure, e que merece trabalhar num setor em que ainda vale a pena acreditar.